Após 37 anos, ex-morador de rua reencontra família com ajuda do SOS Rua

 

 

 

O encontro ocorrido há uma semana, colocou fim a um ciclo de sofrimento e ausência que teve início quando Fabiano deixou a casa dos pais em Rancho Alegre, no Paraná, para buscar emprego no Paraguai, aos 27 anos. Hoje, com 63 anos, ele acumula muito tempo nas ruas de Campinas. Quem passava pela avenida Francisco Glicério, entre as agências do Banco do Brasil, o cartório e o Edifício Itaguaçu, conhecido como Redondo, podia encontrá-lo por lá. Com uma barba vasta, chapéu na cabeça e sem camisa, era uma figura conhecida e querida no Centro da cidade.

 

 

 

Segundo Cláudia Gripe, monitora social do SOS Rua, o primeiro atendimento de Fabiano registrado no serviço é de 29 de junho de 2011. Ele também era atendido no Centro Pop e na Casa da Cidadania. Cláudia o acompanhava e confirma que a princípio ele não aceitava nenhum tipo de aproximação. “Embora nosso relacionamento com ele fosse um pouco complicado, o seu Fabiano nunca foi uma pessoa agressiva, pelo contrário, sofria várias agressões na rua, inclusive foi roubado várias vezes”.

 

 

 

Esses episódios de agressão eram até seguidos por “sumiços temporários”. “No final do ano passado mesmo ele foi assaltado e saiu de Campinas. Sumiu e deixou o carrinho dele em frente ao Banco do Brasil”.

 

 

 

Cláudia conta que foi feito um longo trabalho de vinculação com Fabiano para que ele passasse a confiar nas equipes de abordagem do SOS Rua. Conquistada a confiança , o time do SOS conseguiu convencê-lo a ir para uma pensão. O primeiro quarto, ele mesmo procurou, mas o local era insalubre, muito pequeno e sem janelas. O próximo passo foi ajudá-lo a conseguir outro quarto, maior e com janelas grandes. A monitora social conta que para conseguir viver na pensão, o Fabiano passou por um difícil período de adaptação. “Ele não conseguia ficar em um lugar fechado, foi um processo bem difícil e demorado”.

 

 

 

Fabiano também passou a ser atendido pelo Consultório na Rua, que leva assistência médica a pessoas em situação de rua. Lá começou a tratar questões como a diabetes e a pressão alta, passou a se cuidar melhor, a caminhar e perder peso.

 

 

 

Outro trabalho realizado pelo SOS Rua – importante para Fabiano – foi a ajuda oferecida para que pudesse refazer seus documentos. Embora ainda os tivesse, os papéis estavam muito gastos pelo tempo. Com a ajuda da equipe, toda a documentação dele foi refeita e com a orientação do serviço, seu Fabiano também conseguiu um Benefício de Prestação Continuada (BPC) com o valor de um salário-mínimo mensal após passar pela perícia médica e social.

 

 

Família

 

 

Quando Fabiano deixou a casa dos pais, aos 27 anos, alguns dos irmãos ainda eram pequenos. Mas não se esqueceram dele, assim como os pais que sempre tiveram esperança de reencontrá-lo. Na época, a cidade de Rancho Alegre, no Paraná, ficou pequena para os sonhos de Fabiano que migrou para o Paraguai em busca de emprego. O irmão, José Davi Gomes Moreira, de 54 anos, lembra que já tinha feito a mesma viagem com o irmão outras vezes, sempre para trabalhar em lavouras do país vizinho. A viagem em que Fabiano foi sozinho, porém, não teve data para retorno.

 

 

 

José Davi conta que a família escreveu por muitos anos cartas , que eram entregues para amigos e conhecidos que iam para o Paraguai. “Se você encontrar o Fabiano por lá, fala que nós estamos esperando ele, entrega a carta para ele”. A resposta porém não vinha. A primeira pista do paradeiro do Fabiano veio somente décadas depois pela rede social. Uma vendedora de Campinas fez um perfil no Facebook para Fabiano e colocou uma foto dele. Fabiano não tinha acesso à página, mas foi por meio da foto que a família teve uma primeira pista de onde ele estava – pela foto eles perceberam a grande semelhança com o pai.

 

 

 

A irmã caçula, Marta, de 43 anos, trabalha como agente de segurança no fórum de Olímpia, conversou com amigos policiais militares e teve a ideia de procurar por boletins de ocorrência com o nome do irmão. “Fui na delegacia e começamos a procurar BOs e realmente tinha um que ele fez no mês de março deste ano. E foi por meio desse B.O que encontrei o endereço dele em Campinas”.

 

 

 

“A gente sabia que ele morava na rua, então fomos meio apreensivos porque não sabíamos se iríamos encontrar ou não porque não tinha um local exato. Chegando em Campinas, procuramos uma delegacia próxima e o policial que nos atendeu disse que ele estava há dois quarteirões de distância”, contou Marta.

 

 

 

O reencontro

 

Marta, Noel e José David viajaram a noite toda. E chegaram de manhã já para levar o irmão de volta. Foi Fabiano quem abriu o portão para recebê-los e depois de uma breve conversa com os irmãos, os reconheceu e, entre lágrimas e sorrisos, recebeu abraços apertados. “Ele foi lembrando de onde morávamos, das pessoas que conhecemos naquela época e foi uma alegria só”, recorda Noel.

 

 

 

A chegada dos irmãos na pensão foi emocionante para Fabiano. “Foi uma surpresa calorosa, uma coisa difícil de explicar, eu não esperava”, contou. Sobre sua chegada em Olímpia, Fabiano resume em poucas palavras. “Abracei a mãe, o pai e o resto dos irmãos e sobrinhos. Foi uma festa danada. Estou muito feliz”.

 

 

 

O seu Vitor e a Dona Luzia receberam Fabiano com lágrimas de alegria. Religiosos, agradeceram a Deus pela volta do filho pródigo. “A mãe nunca deixou de pensar que ele estava vivo e que ela ia reencontrá-lo um dia. Nunca perdeu a esperança”, conta Marta.

 

 

 

Serviços

 

 

O SOS Rua promove a abordagem social para pessoas adultas em situação de rua . Este serviço é uma parceria entre a Associação Cornélia Vlieg e a Secretaria Municipal de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos.

 

 

 

A secretária Municipal Eliane Jocelaine Pereira, responsável pela Pasta, ressalta que todos os serviços socioassistenciais desenvolvem estratégias para que se possa fortalecer o vínculo entre a pessoa em situação de rua e sua família. “Tanto o SOS Rua quanto o Centro POP possuem estratégias direcionadas ao resgate e ao fortalecimento dos vínculos entre as pessoas em situação de rua e suas famílias”.

 

 

 

Assim como outros serviços da Secretaria, o SOS Rua é a porta de entrada para os serviços oferecidos pela Administração municipal, conta William Azevedo de Souza, coordenador da Proteção Social de Média Complexidade da SMASDH. “A equipe auxilia as pessoas em situação de rua a buscarem tratamento médico no Consultório na Rua, centros de saúde e CAPs, além de ajudar com a documentação, cadastros para benefícios sociais e no retorno à família e cidades de origem por meio do programa Recâmbio”.

 

 

O coordenador destaca que o trabalho realizado pela rede da assistência é minucioso e complexo. “Uma sucessão de eventos leva a pessoa para a rua e a mantém nesta situação. Na rua tudo fica mais difícil, tomar água, tomar banho, carregar o cobertor. Para a pessoa que está na rua, a noção de tempo é muito diferente da que temos e é preciso criar vínculos e ajudá-la a conseguir superar todos essas questões”.